quarta-feira, 25 de julho de 2012

Como um nikkei

Apenas compreendemos o que outrem sente, quando nos colocamos em seu lugar vivenciando situações semelhantes. Partindo deste ponto, acho interessante aquilo que chamamos de experiência antropológica, ou seja, participar do dia-a-dia de um grupo se tornando parte dele, acreditando por fim, ser sua imagem e semelhança. Creio que tenha vivido uma, tal qual viveu Malinowski (1884-1942) entre os Kula e, sobretudo, Franz Boas (1858-1942) entre os Kwalkiut; eu estaria entre os japoneses nikkeis. Já respondo de antemão para os que possam se perguntar: Sim, eu me sinto um japonês. Apesar de não ter descendência nenhuma asiática, somente os olhos pequenos (pequenos, não puxados), posso jurar que sou um japonês às vezes.

Posto isto, eu explico. Já há alguns anos tenho convivido cada vez mais com descendentes de japoneses, creio que cerca de 85% dos meus amigos e círculo social hoje seja formado por japoneses*. Sempre admirei a cultura e seu povo, história, modo de vida, problemas sociais, idioma, comportamento. Gostaria de ter nascido japonês, se pudesse, mas vamos continuar. Há anos comecei a participar de atividades relacionadas a cultura do Japão, seja ela específica ou não, entrando para um grupo onde 95% dos membros são nikkeis. Para mim, alguém só se define como membro de uma determinada etnia ou cultura quando compartilha seus valores, uma certa visão culturalista. Por isso acredito que diversos japoneses se declaram mais brasileiros do que japoneses, pois não compartilham mais de suas raízes. Na verdade, brasileiros todos são , pois nasceram aqui, porém acredito muito nos valores que cada um compartilha como definidor de uma identidade cultural e não pátria, indo, portanto, muito além de características físicas. 

Já parou para pensar quantas coisas estão envolvidas, além do preconceito e discriminação, quando você chama um descendente de nikkeis de "japa" ou "japonês"? Neste momento levamos a bagagem cultural do outro em consideração e não sua nacionalidade. Poderia falar de outros brasileiros "portugas", "alemão" ou "turcos", mas este post é sobre minha relação no meio nipônico, alongaria-me muito se o fizesse. Continuando. Levando em consideração a cultura, o que nos faz chamar alguém que tem os olhos puxados de japonês, sem nem ao menos o conhecer? Esteriótipo? Costume? Ambos. Seria um preconceito? Teoricamente sim, mas o preconceito só se torna um preconceito quando se usa a palavra com intenção de ofender, o que nem sempre ocorre neste caso. 

Porém, posso dizer que minha vivência mais forte e real "como japonês", foi quando compartilhei deste sentimento de "diferenciação". Existe no idioma japonês a palavra "gaijin" para identificar "aquele que é de fora", formado pelos ideogramas de "fora" e "pessoa" (autoexplicativo, não?). A palavra pode possuir um certo significado pejorativo, quando mal empregada, assim como a palavra "japonês" do nosso português. Situação (é bom exemplificar onde quero chegar): Sabe aquele momento em que você, brasileiro, está com seus amigos e no meio deles tem um japonês e você só o chama de "japa" ou só fala sobre ele como se ele fosse diferente (Não estou sendo caxias neste ponto, onegai, só estou exemplificando)? Então, já se perguntou como ele se sente em relação a isto? Eu também não. Porém obtive a resposta, melhor, senti a resposta. Certa vez com meus amigos japoneses, fui chamado de gaijin (lembre-se que me sinto um japonês, bem como eles se sentem brasileiros). Se havia a intenção de ofender ou não, não me lembro. Porém na hora foi estranho. Senti-me diferente, senti-me como um nikkei. Por outras vezes, brasileiros ao me ver com meus amigos, pontuaram: "Ué, mas aquele ali não é japonês, esse eu consigo diferenciar". Essa doeu. 

Por dolorida que tenha sido, a experiência foi fantástica. Compreender um sentimento não é fácil, só vivenciando a mesma situação. O problema não está nas palavras, mas sim na intenção de cada um e na compreensão do outro. Hoje já não me importo em ser chamado de gaijin, coisa relativa para quem me conhece de perto. Também utilizo certas expressões. Não é minha intenção julgar ninguém por seus preconceitos; apenas gostaria de demonstrar o quanto sinto orgulho, o quanto me sinto parte, o quanto me sinto japonês, na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença.


あなたがこの文章を読んだので、ほんまにありがとう。わかるはずでした・・・

*Lê-se nikkeis.

2 comentários:

L.Inafuko disse...

Concordo contigo, Pablo. A palavra por si só não tem peso nenhum se não tiver um contexto.
Mas, infelizmente, vejo muito o uso da palavra gaijin para se referir de forma depreciativa àqueles que agem de forma contrária ao que acreditamos. Frases como "só podia ser gaijin", "isso é coisa de gaijin", ou "nem parece japonês, só gaijin faz isso" são tristes, pois faz a gente acreditar que somos melhores que os outros, e eu não acredito nisso. Eu acho que ainda há preconceito contras os japoneses, e me irrita muito quando alguém faz alguma graça e tal, mas nem por isso devemos rotular essas pessoas, pois acabamos fazendo a mesma coisa que elas. Desabafo geral aqui hauahuahu

De fato, eu me considero muito mais brasileira do que japonesa, porque nasci no Brasil. Eu entendo tudo isso como nacionalidade e não culturalidade (existe este termo?). Se fosse assim, você poderia ser francês pelo simples fato de entender muito bem a cultura francesa, ou não?
Eu não me considero japonesa (no contexto cultural), e sempre tento explicar para as pessoas que eu sou brasileira e que descendo de uma família japonesa (embora seja muito difícil das pessoas comuns entenderem isso).
Agora, se ser japonês é entender a cultura, a história e os costumes, 99% dos nossos amigos não são nem um pouquinho japoneses.
Enfim, não sei se me fiz entender hauhauahu

Pablo disse...

Sobre o que você disse Laura entre nacionalidade e culturalismo, não quis dizer que apenas o fato de conhecer o faz uma pessoa de outra nacionalidade (a antropologia diz que mudar de nacionalidade é impossível). Na parte cultural eu me referi, ou tencionei, não somente ao fato de conhecer, mas também de sentir, viver, conviver.